quinta-feira, 29 de setembro de 2011

MARIA ARMANDA, O QUE TU FIZESTE


GLOBALIZAÇÃO: A generalização dos interesses económicos de um grupo dominante.

Começou por ter uma base territorial (o poderio do país de origem contava muito no sucesso da “empreitada”) para passar a ser trans-nacional (os maiores grupos económicos chegam a ter um orçamento maior que muitos países e são os países que se tornam dependentes deles). Entende-se “grupo” em sentido amplo, podendo ser mais ou menos coeso na sua actuação; e pode estar longe de ser homogéneo (embora aos grupos interesse criar homogeneidades, por ex. harmonizar as legislações dos vários países).

A maior parte das pessoas pensa que a globalização significa viagens mais baratas e sermos todos amigos dos meninos que estão mais ali práqueles lados.

Na verdade, foi a Maria Armanda que iniciou a globalização (os portugueses do séc. XVI já tinham levado os seus bigodes até paragens, digamos, pré-modernas; mas esta senhora introduziu a ruptura epistemológica!) – cantando em várias línguas e mais não sei quê:


COMENTÁRIO DE HUGO CHAVEZ EM 2008



"Ela (Merkel) é a direita alemã, a mesma que apoiou Hitler, que

apoiou o fascismo, essa é a chanceler da Alemanha hoje"



(aqui)

terça-feira, 27 de setembro de 2011

UNIÃO EUROPEIA


Processo colonizador de tipo diplomático desenvolvido pela Alemanha a partir do fim da Segunda Guerra Mundial que consistiu em pagar aos países europeus para eles destruírem a sua capacidade produtiva, tornando-os dependentes, economica e logo politicamente, do Reich.

Uma espécie de nazismo multicultural e moderninho.

Nem tudo foi mau: os estudantes curtiram o programa Erasmus e eu conheci a Martina, uma moça impecável que agora deve ter um namorado decente.

- Fala-se muito de cinismo intelectual.

- És um bruto à moda antiga. Um querido.

- É isso que te atrai em mim?

- Agrada-me a arquitectura primitiva. A ilusão da consciência num corpo usado.

- Tens consciência de que és uma mulher sofisticada?

- Sou uma mulher que gosta de foder.

- Não mudes de assunto.

- Estou a ganhar tempo, querido.

CENA MARADA

Há dias perguntaram-me qual foi a cena mais marada que me aconteceu em 8 anos de blogaria. Ora, de muitas cenas maradas que já me aconteceram, uma das mais maradas foi esta que passo a relatar esperando não vir a ferir os bons sentimentos dos visados. Afinal, já passaram mais de 5 anos e nada disto tem qualquer relevância. No dia 14 de Março de 2006, publiquei no Insónia um post, entretanto importado para aqui, sobre o filme Coisa Ruim. Na caixa de comentários ao dito, à 13:44, apareceu-me isto:

Anonymous said...
Desconhecia que o "sucesso" do filme estava associado ao meu nome. Escapa-me a lógica da coisa. Quanto à banalidade do argumento, seria interessante perceber o que se espera do Cinema e o que entendemos como banal. Porque, a querermos esgravatar e bater, até o argumento de Citizen Kane pode ser resumido de forma banal: ascensão e queda de um homem poderoso. What´s new? E o Padrinho? Uma família que mata uns tipos e tem medo que matem os seus? E Straight Story, de Lynch? Um velho decide visitar o irmão que está a morrer? Big deal. Temos, de facto, entendimentos muito diferentes do cinema. Parece-me que, no seu caso, está ainda na fase do "twist". Enfim, pano para mangas. Mas felicito-o pela sua"crítica" ao filme, com espantoso e rebuscado ensaio sobre o medo. Estou esmagado. Neste país, toda a gente sabe como se faz. E no entanto, continua a haver mais artistas do que obras de arte.
Atentamente, Rodrigo Guedes de Carvalho


Às 14:06 eu respondi:

Eu não sei como se faz, nem quero saber. Limito-me, enquanto espectador, a pensar alto sobre aquilo que vou vendo. Os weblogs dão-nos, a nós espectadores, essa possibilidade. Isto não é nem tem a pretensão de ser uma “crítica”, ainda que entre aspas. Isto é um post, se quiser pode entendê-lo como uma entrada num diário online. Só isso, nada mais. Um espectador a pensar alto sobre o que viu. Nesse sentido, interessa-me muito mais a questão do medo. Sou professor de Filosofia, não sou crítico de cinema. Interessam-me mais as questões “metafísicas”. Quanto ao sucesso do filme: tem dúvidas que assim seja, tem dúvidas que de outra forma o filme não teria tanto tempo de antena nos media? Não tenha, nem se sinta incomodado por isso. Assim se vai aguentando… o país e o mundo.
Atentamente, Henrique Manuel Bento Fialho

P.S.: Ainda quanto ao sucesso do filme - eu escrevi «parte do sucesso do filme» e não «o sucesso do filme». Qual a diferença? Seria bom não tomar o todo pelas partes. E, já agora, as partes pelo todo
.

Este comentário mereceu ainda a seguinte réplica às 15:39:

Caro Bento Fialho: Como Professor de Filosofia, saberá dar o devido valor aos não-ditos. Saber que os silêncios pesam tanto como as palavras. Registo, a propósito, que na sua ofendida resposta já não vem com a conversa do "banal". Quanto às suas certezas de "sucessos a reboque do mediatismo", o senhor é apenas mais um. Há os que tomam partes por todos, como diz, e há os que tomam certezas por palpites. Não sei o que entende por "sucesso". Público? Saberá mais do que eu, que não tenho números de bilheteira. Crítica? Acho curioso então o seu atestado de incompetência à esmagadora maioria dos críticos. Será que, coitados, condescenderam a dizer bem do filme por causa do meu nome? É pena que não perceba que isto da figura pública tem sempre duas faces. E talvez nem sonhe que a mais visível é a que você demonstra: o preconceito pobrezinho de achar que quem aparece na TV não sabe escrever. Quanto à divulgação nos media, jornais, rádio ou TV, se se desse ao trabalho de comparar número e destaque de notícias entre Alice, O Fatalista, Coisa Ruim e agora o Espelho Mágico, veria que não sabe, afinal, do que está a falar. Com uma agravante que parece escapar-lhe: no que respeita a Informação diária, o Coisa Ruim foi absolutamente escondido na RTP e TVI, pelas razões que se imagina...Quanto ao destaque dado pela SIC, lembro-lhe que a SIC foi Televisão Oficial do Fantasporto. Se não falasse do evento, se não lembrasse o facto inédito de um filme português estar a abrir o Festival, isso seria apenas mau jornalismo.
Ah, isto só foi em anonymous porque não percebo nada de blogs e de outra forma pede-me um register ou não sei quê e não estava a entender nada. Mas assino-me, obviamente, que só gosto de coisas às claras.
Rodrigo Guedes de Carvalho


A minha estupefacção aumentava, e às 17:27 pude responder:

Caro Anonymous,
1.º: O meu ganha-pão não é escrever posts, muito menos responder minuciosamente aos comentários que vão caindo nesses mesmos posts;
2.º Você acha mesmo que foi uma ofendida resposta? Amanse-se, homem! Se aquilo foi uma ofendida resposta, o que será uma resposta ofendida?
3.º Deixei a conversa do banal de lado, porque o seu comentário suscitou um assunto que me apetece desenvolver em post. Não tenha pressa.
4.º Quanto ao sucesso, há duas questões: a) parte do sucesso deve-se, naturalmente, ao facto do autor do argumento ser uma figura pública. Assim não fosse e ninguém ligaria “puto” ao argumentista, como acontece na maioria dos filmes (nacionais e não só). Digamos que neste caso, vossemecê – confiando que vossemecê é mesmo vossemecê - está a cumprir o papel da vedeta que falta ao filme. Não tem mal algum nisso. Na máquina promotora do filme, vossemecê é, digamos assim, a BB do Coisa Ruim; b) o que entendo por sucesso? Certamente o que vossemecê entenderá: a aderência do público (incluindo críticos, que não deixam de ser público). E olhe que estes, ao contrário do que vossemecê diz, nem foram muito benevolentes. Vossemecê se calhar não sabe e não liga, mas a sua maioria é diferente da minha. Vejamos a maioria do Actual: há um que resume a coisa às 3 estrelinhas, os restantes três atribuem todos 2 estrelinhas (vai-me desculpar, mas nos jornais eu só leio as estrelinhas); no 6.ª a coisa é confrangedora: 2 dos avisados críticos dão 3 estrelinhas e o outro, de seu nome João Lopes, fica-se por 1 estrelinha. Que diabo! Anda para aqui um gajo a passar atestados de incompetência a maiorias relativas e depois dá nisto!
5.º Vossemecê fala de um «preconceito pobrezinho de achar que quem aparece na TV não sabe escrever». Certamente não se referirá a mim, pois não? Eu, sinceramente, acho que o preconceito, senão a paranóia, é sua. Vossemecê não sabe com quem está a falar e vem para aqui lançar umas postas de pescada insinuando preconceitos a quem desconhece por completo. Não é justo. Mas eu é que não sei do que estou a falar.
Por aqui me fico, desejando-lhe o maior sucesso e, veja bem, confessando-me seu admirador de todas as 20:00…
Saúde,


Às 18:04 o comentador de serviço insistiu:

Estava visto que tínhamos de chegar aqui. Ao vossemecê, à BB, ao amanse-se. À distância de um blog, toda a gente enche o peito, é espigadota e estica o dedo. E, sobretudo, assim se prova que a malta da blogosfera muito gosta de malhar e pouco de ser malhada. Compreende-se. Se ninguém liga puto ao argumentista é porque, caso não tenha reparado, quase nunca há argumentista. O próprio realizador, regra geral, fez uma adaptação de um textinho qualquer, romance antigo ou poema obscuro. Quanto ao João Lopes, há histórias que desconhece e não vou estar aqui a explicar-lhe o que são quezílias de capelinha. Mas a última coisa que quero dizer-lhe é que aproveitei estar por aqui e dei uma voltinha pelos textos e afins. Meu Deus. Com 31 anos e um canudo de Filosofia "a gente" está sempre cheia de certezas. Isso passa. Ah, embora não seja douto filósofo, algo me diz que "aderência" é mais para pneus. E ler críticas não é, de facto, ler estrelinhas. É assim, como dizer, ler uma boa BD só a olhar para os bonecos. Por mim, adeus a esta palhaçada aos olhos dos seus admiráveis leitores. Para mais alguma coisa, e para que não lhe restem dúvidas, envie para xxxxxx@.pt. Se me vai dar mais bicadas, faça-me, por favor, um forward. E creia-me: isto sou eu amansado.

O meu último comentário foi às 19:07:

«assim se prova que a malta da blogosfera muito gosta de malhar e pouco de ser malhada.»

Meu caro, sou eu que estou a delirar ou foi vossemecê que veio para aqui malhar?



Entretanto, o diálogo não se ficou por aqui. Se tivesse ficado não tinha piada. Na caixa de e-mail recebo a seguinte mensagem:

Exmo. Senhor.

Temos aqui uma grande confusão. Vamos ver se consigo explicar-lhe.

- A Produtora Madragoa Filmes, através do seu departamento de Marketing e Promoção, tem por hábito enviar-me tudo o que é referência ao filme Coisa Ruim, blogosfera incluída. Recebo assim, há minutos, a parafernália que já vai no seu blog, com a pergunta: O que é isto, Rodrigo?!
Excelente pergunta. Só tenho uma explicação. A redacção SIC (que não sei se conhece) é um imenso “open space”. E na redacção da SIC, para além de muitas dezenas de verdadeiros amigos e colegas, tenho alguns “anti-corpos”. Penso que infelizmente acontecerá em muitos locais de trabalho.
- Cheguei hoje à SIC por volta das 11.30, a minha hora habitual. Abri o computador, como sempre faço, comecei a trabalhar, e tive depois de sair para um almoço que se prolongou da parte da tarde (preparamos a Operação Mundial 2006). Pequeno pormenor: não desliguei o computador.
- Regressei à Redacção há cerca de 45 minutos e tinha esta desagradável surpresa. Há, aliás, um pormenor pérfido nas mensagens que trocaram consigo. Dão-lhe exactamente o meu e-mail, talvez à espera que eu recebesse insultos sem perceber porquê
. - Resta-me pedir-lhe desculpa por todo este desagradável episódio. Bem sei que não me conhece, mas garanto-lhe que seria incapaz deste tipo de comentários a comentários ou posts, espaços livres por definição para as mais diversas opiniões. Demonstraria falta de maturidade e poder de encaixe, duas características de que me orgulho.
Apesar de não ter responsabilidade no sucedido, aceite as desculpas do

Rodrigo Guedes de Carvalho (agora sim)


A este e-mail respondi eu às 20:06:

Bem,
Para mim isto é tudo incompreensível. Na volta, o Coisa Ruim anda mesmo a atacar aí pela redacção da SIC. Como estou muito cansado, vou limitar-me a perguntar-lhe se quer que apague os comentários, publique esta nota explicativa ou outra coisa qualquer.
Saúde,
Henrique Manuel Bento Fialho


Até que, por fim, o Rodrigo Guedes Carvalho rematou:

Isto de estar a fazer o Jornal da Noite e responder a mail é complicado…
Sim, acredito que possa parecer incompreensível. Entendo a ironia, mas olhe que não há nada mais fácil. Basta vontade e trama-se qualquer colega. Teria dezenas de histórias (com as quais obviamente não o vou maçar)
Deixo totalmente ao seu critério, mas acredite que não é muito agradável a ideia que fica de mim…

E obrigado pela resposta Rodrigo GC

PS - deixo-lhe inclusivamente o meu móvel 9********. Disponha



Nunca dispus e acabei por apagar os comentários. Depois fui ver o Jornal da Noite, a pensar em “pequenos pormenores”. Hoje estou a caminho dos 37 anos, já não sou professor de filosofia, mas estou como outro, “bem ca puta da vida. Obrigado pelos cuidados ;)”.

domingo, 25 de setembro de 2011

A PROPÓSITO, NUNO OLIVEIRA, DE HUMILDADE, O SENHOR QUE SE SEGUE TINHA UMA OPINIÃO QUE, COMO AGORA SE DIZ, VALE O QUE VALE.

«Devo à Providência a graça de ser pobre: sem bens que valham, por muito pouco estou preso à roda da fortuna, nem falta me fizeram nunca lugares rendosos, riquezas, ostentações. E para ganhar, na modéstia a que me habituei e em que posso viver, o pão de cada dia não tenho de enredar-me na trama dos negócios ou em comprometedoras solidariedades. Sou um homem independente. Nunca tive os olhos postos em clientelas políticas nem procurei formar partido que me apoiasse mas em paga do seu apoio me definisse a orientação e os limites da acção governativa. Nunca lisonjeei os homens ou as massas, diante de quem tantos se curvam no Mundo de hoje, em subserviências que são uma hipocrisia ou uma abjecção. Se lhes defendo tenazmente os interesses, se me ocupo das reivindicações dos humildes, é pelo mérito próprio e imposição da minha consciência de governante, não por ligações partidárias ou compromissos eleitorais que me estorvem. Sou, tanto quanto se pode ser, um homem livre. Jamais empreguei o insulto ou a agressão de modo que homens dignos se considerassem impossibilitados de colaborar. No exame dos tristes períodos que nos antecederam esforcei-me sempre por demonstrar como de pouco valiam as qualidades dos homens contra a força implacável dos erros que se viam obrigados a servir. E não é minha culpa se, passados vinte anos de uma experiência luminosa, eles próprios continuam a apresentar-se como inteiramente responsáveis do anterior descalabro, visto teimarem em proclamar a bondade dos princípios e a sua correcta aplicação à Nação Portuguesa. Fui humano».


Discurso de SALAZAR de saudação e agradecimento ao Porto, em 1949, no Palácio da Bolsa, em 7 de Janeiro, ao inaugurar-se a conferência da União Nacional e a campanha para a reeleição do Senhor Presidente da República.

DESCUBRA AS DIFERENÇAS





RICO, BONITO E GRANDE JOGADOR


sábado, 24 de setembro de 2011

HAVIA TANTO PRA DIZER SOBRE CURITIBA

A equipa de marketing que gere a minha produção literária (pffff…) por vezes manda-me uma lista de referências aos meus livros que encontra na internet. Tais achamentos são sempre um motivo de festa e a minha equipa (esse pessoal bacana e incansável que, mais do que eu, é o verdadeiro responsável pela minha obra) apenas lamenta não poder festejar mais do que duas vezes por ano (uma no Natal, com as respectivas famílias, e outra quando eu faço uma crítica positiva a qualquer coisa minha, sob pseudónimo).

A “sensualíssima”(nome de um dos seus blogs) Pat que, segundo parece, mora em Curitiba, citou uma frase do meu livro “A resistência dos materiais” no seu Twitter. Para ela, as minhas saudações e a promessa de uma recepção calorosa no Rio de Janeiro, se for o caso. Espero, entretanto, que se torne uma seguidora fiel deste blog.

Aqui tá o link para um blog da Pat: http://mundobrasileirissima.blogspot.com/
Aqui tá o link para outro blog da Pat:http://meumundosensual.blogspot.com/

E aqui tá a Pat:




SCHOPENHAUER




Na caixa de comentários ao post sobre Brutal-Slam-Death-Metal italiano, a Joana Serrado refere Immanuel Kant. Estou em crer que o filósofo alemão tem muito mais que ver com o espírito grindcore, dada a sua inclinação crítica e, sobretudo, alguns traços de personalidade hoje lendários. Kant raramente se afastou da terra onde nasceu (Königsberg), era um homem de hábitos que se levantava todos os dias às cinco da madrugada e dava, sempre à mesma hora, um passeio a pé. Pontual, cumpridor, metódico, morreu praticamente cego, sem memória nem lucidez. Esta ironia do destino é tipicamente grind, uma música que partilha com Kant, nas suas meteóricas composições, a obsessão metodológica. Os temas grindcore são tão fiéis à sua metodologia que dificilmente conseguimos distingui-los uns dos outros. O mesmo não sucede com o Brutal-Slam-Death-Metal, venha ele de Itália ou da margem sul. Arthur Schopenhauer é quem melhor se adequa ao conceito Brutal-Slam-Death-Metal. Primeiro, porque conseguiu reduzir a filosofia hegeliana a “palhaçada filosófica”, depois porque tinha cara disso e, por fim, porque escreveu algumas das mais sábias considerações sobre a natureza feminina. De nada vale tentarem reduzir a estirpe dos Schopenhauer a um pai suicida, a uma mãe licenciosa e a uma avó louca. Lobo Vilela informa-nos que Arthur nunca teve quem lhe chamasse arturico, viveu na companhia exclusiva do seu fiel Atma, o cão, «passando toda a vida num ambiente árido de afectos, sem família, sem amigos, sem pátria, incompreendido, (…) misantropo, desconfiado, consumindo-se em sinistros pavores: dormia com pistolas carregadas, à cabeceira da cama, não confiava o rosto à navalha do barbeiro e não podia ouvir barulho». Ok. Mas soube vingar-se do destino a escrever sobre o amor como se alguma vez tivesse amado e sobre as mulheres como se alguma vez tivesse molhado o pincel e sobre o casamento como se alguma vez tivesse descido aos infernos. Peço, pois, a vossa máxima atenção para este excerto do Ensaio Acerca das Mulheres:

A natureza, separando a espécie humana em duas categorias, não fez as partes iguais… Foi certamente o que sempre pensaram os antigos e os povos do Oriente; compreendiam melhor o papel que convém às mulheres, do que nós fazemos com a nossa galantaria à antiga moda francesa e a nossa estúpida veneração, que é na verdade a mais completa expansão da tolice germano-cristã. Isto só serviu para as tornar arrogantes e impertinentes: por vezes fazem-me pensar nos macacos sagrados de Benarès, que têm tanto a consciência da sua dignidade sacrossanta e da sua inviolabilidade, que julgam que tudo lhes é permitido.
A mulher no Ocidente, o que chamam de dama, encontra-se numa posição absolutamente falsa, porque a mulher, o sexus sequior dos antigos, não foi feita de modo nenhum para inspirar veneração e receber homenagens, nem para levantar mais a cabeça que o homem, nem para ter direitos iguais aos dele. As consequências dessa falsa situação são demasiado evidentes. Seria para desejar que na Europa se pusesse de novo no seu lugar natural esse número dois da espécie humana e se suprimisse a dama, alvo das zombarias da Ásia inteira, da qual Roma e a Grécia se teriam rido igualmente.
Esta reforma seria um verdadeiro benefício no ponto de vista político e social. O princípio da lei sálica é tão evidente, tão indiscutível, que parece inútil formulá-lo. O que se chama verdadeiramente a dama europeia é uma espécie de ser que não deveria existir. Só devia haver no mundo mulheres caseiras aplicando-se aos trabalhos domésticos, e raparigas que aspirassem ao mesmo fim e se educariam sem arrogância, para o trabalho e para a submissão. É precisamente por haver damas na Europa que as mulheres de classe inferior, isto é, a maior parte, são muito mais para lastimar do que no Oriente
.


Schopenhauer, in Metafísica do Amor, 3.ª edição, trad. Lobo Vilela, Editorial Inquérito Limitada, pp. 82-84.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

WERNER HERZOG, THOMAS BERNHARD

Grizzly Man, de Werner Herzog (2005), é um documentário surpreendente. Cheguei a pensar que o homem que queria ser urso fosse uma invenção do realizador para uma ficção disfarçada de documentário, mas não: trata-se de um documentário mesmo, embora este “mesmo” soe duvidoso aqui, como se as fronteiras dos géneros continuamente se deslocassem, afastando-se ou coincidindo. Foi o próprio Grizzly Man que filmou grande parte das imagens que Herzog recuperou, juntando-lhe alguns comentários seus e conversas com pessoas que conheceram Timothy Treadwell, o ex-surfista que oscila entre comédia e desespero.

Claro que a utopia da comunicação com os seres “simples” (sejam humanos ou não) nunca funciona - O Grizzly Man acaba devorado por um urso -, conforme Thomas Bernhard bem sabia, ou por ele o personagem que, observando os carregadores de cerveja, pensa: “Volta e meia nós nos imaginamos sentados na companhia daqueles por quem toda a vida nos sentimos atraídos, junto dessas assim chamadas pessoas simples, que naturalmente imaginamos bem diferentes do que são na verdade, pois se nos sentamos de fato em sua companhia, vemos que elas não são como pensávamos (…), e quando demonstramos o que sentimos por elas, somos repelidos, e com a maior desconsideração, aliás.” (Thomas Bernhard, O náufrago, Companhia das Letras, 1996). Não creio que carregar a cerveja na barriga altere muito as coisas.

Eis o link para download (grátis) : http://www.megaupload.com/?d=8ZQCNTPT

SEU ZEN (1)



NA PRIMEIRA METADE DA VIDA, FIZ TUDO O QUE GOSTO. NA SEGUNDA, TENCIONO CASAR-ME.

RC


ABAIXO O MITO, DEUS É SURDO

Numa das igrejas da minha rua parece que o teclista hoje faltou. Por isso a cantoria foi acompanhada apenas pela bateria, com o suporte do coral constituído pelos utilizadores da Igreja.

Decerto que os berros chegaram aos céus. Aliás, a julgar pelo volume praticado pelas goelas dos mensageiros do Além, só podemos concluir que Deus, além de não existir, é surdo.

Tenho pena que Deus seja surdo. Não pode ouvir as duas vozes de mulher de que gosto. A outra é a Amália, esta é Concha Buika:

E PRONTOS, VEIO-ME ISTO À CABEÇA


quarta-feira, 21 de setembro de 2011

SORRENTINO, MALICK, CRISTIANO RONALDO, ROCINHA

Gosto muito do Fernando Sorrentino (ver post do henrique abaixo). Alguém lhe deve ter batido mesmo com o guarda-chuva na cabeça, pra ele ficar com essa cara. Os seres humanos acostumam-se às coisas desagradáveis, seja guarda-chuvas ou a nossa imagem no espelho (ou na capa de um livro). Eu mesmo já fui outra coisa, e nesse tempo nem sequer passava a roupa a ferro. Um dia até o fialho se habitua a que lhe soltem as águas em cima (não se sabe de que é que a nossa melhor amiga pode ser capaz). Também não se sabe por que é que tantas pessoas dizem que o filme “The tree of life”, do Terence Malick, é um filme difícil. Aquilo é sobre um tipo bruto e chato que é casado com uma mulher linda e compreensiva que imagina vulcões e as células em movimento e o cristiano ronaldo de gatas, a comer milho no quintal. O Malick esqueceu-se de mostrar imagens de um baile funk na rocinha, falha que eu remedeio agora.


terça-feira, 20 de setembro de 2011

CAMPOS DE GOYTACAZES, NANDO REIS E CANIBALISMO BIBLIOTECÁRIO

Já (ou)vi o Nando Reis em Campos de Goytacazes. É uma terra de canibais, como todas as terras do Brasil, se for verdade que todos os grupos de indios no Brasil praticavam o canibalismo. Em Campos de Goytacazes, hoje, é proibido o canibalismo. Não é uma prática que me atraia muito; o mais próximo que cheguei de tal experiência foi comer canguru e avestruz (têm mais neurónios que os humanos, o que, segundo os índios, lhes prejudica o sabor). Em Campos de Goytacazes há uma bibliotecária canibal. Todas as semanas desaparecem leitores, facto a que ninguém parece dar muita importância. Fui a Campos com o firme propósito de ser canibalizado, mas tudo o que consegui foi assistir ao show do Nando Reis, nessa noite castigada por um frio glacial de quase 20 graus positivos. Se conseguirem ouvir o Nando Reis até ao fim, meus amigos, isso deve ser sinal de alguma coisa.