quinta-feira, 10 de novembro de 2011

SEM MAR DENTRO


O mar está sobreavaliado. Não me fascina o seu ruído constante, que para mim é a marca evidente da sua servidão. O mar não deixa de ser mar, apesar das mudanças de cor, da ondulação que embala ou que mata. Oscila entre marés e tem correntes, mas até os peixes, que são estúpidos, as conhecem. Eu sei que a matéria dos peixes os protege e mantém, e que isso é uma forma de inteligência, mas se os peixes têm inteligência é uma inteligência que é igual à do mar, porque é feita de mar, e o mar é apenas o mar, e por isso os peixes são bichos torpes e tu não sais com eles para jantar. São as coisas que não são do mar que o tornam suportável: um barco que naufraga, um polícia marítimo que olha os traficantes de droga e dá ordens e respira apressado. Por isso as ilhas são os lugares mais infelizes do mundo. Por causa do mar. Ela chegou de avião para ser juíza na ilha e ainda trazia um pouco de terra nos sapatos. Ele, polícia marítimo, prendeu-a por toda a vida num barquinho salgado, raspou-lhe as escamas, e o vulcão subiu do mar e sacudiu a água e eles ficaram lá em cima, na lavoura arcaica dos filhos e das sopas, dos sonhos, dos remédios, dos armários, no trabalho dos dias. 


3 comentários:

Cuca disse...

Essa é uma bonita estória de amor.

Lane Lee disse...

Uma delícia de texto, delícia de blog. Parabéns =D

Rui Costa (msgtorc@hotmail.com) disse...

obrigados, bjs