sábado, 22 de outubro de 2011


VERSOS DE AMOR PÓS-MODERNO(S)

1

amo-te
por não ser outro:
é, assim, uma impossibilidade
que nos aproxima

2

é possível
gostar de te pegar nas mãos
e estremecer
mesmo depois de as ter tocado:
sermos tão mutuamente
incompletos

3

E sorrires em mim
a imperfeição do mundo:
vícios, gozo, pequenas quedas

4

cabemos inteiros
no mundo, às vezes
acordamos com os pés
fora da cama:
somos pequenos,
somos tão grandes.

5

exagero o que
não sou para que
gostes mais de mim:
aumentar a probabilidade
de te receber.

6

com asas
demasiado grandes
não se voa: teme-se.
vou a muitos lados,
reuno-te os pedaços.

7

digo o contrário
do que quero
para que no espelho
a imagem não surja
invertida.

8

és única e eu
sou único:
mas nunca somos úni-
cos sozinhos.

9

quero menos ao
lugar onde não estás. mas
viajo, interesso-me,
porque não sei onde um dia
abriremos a casa.

10

às vezes sento-me sozinho
e desconheço ainda mais
o mundo.

11

é a paisagem que nos comunica,
somos pura memória condoída,
comedores de saudade.
ao fim da tarde choramos
estrela branca, de noite os ossos
ligeiramente transparentes.

12

então saímos de nós,
perdemos as mãos
na cidade quente.
chamamo-nos crianças e
subimos ao caule do absinto,
caímos manhã adentro
inchados de sol

13

o tempo é o nojo,
requer-me a pila, o
coração, mia rasteiro
nos olhos a espetar o medo,
alimenta-te do nosso amor,
não te incomodes,
estamos aqui para te progredir,
cão tinhoso do mundo,
um dia vais afocinhar
no teu próprio cu.

14

somos assim,
feitos à mão nas traseiras
de deus, essa boneca de circo
sem orelhas.
ninguém reclamou e
hoje estamos os dois
a descambar a república num
punhado de rum, cumplicidade,
dream-violeta.

15

as limitações do amor
são infinitas.


Rui Costa
in As Limitações do Amor  são  Infinitas (2009)